terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tempo de viver


Todos os dias escuto minha mãe falar uma peculiar frase, que de tanto escutá-la já até virou um jargão: “só perde tempo”. E outra que a sucede: “não faz nada da vida”. Ela está preocupada com o futuro de seu filho que ainda jovem tem de se preparar para os ‘desafios’ da vida.
Ouço estas frase normalmente quando não estou estudando, trabalhando ou nos afazeres domésticos, também acontece quando utilizo a internet (mais especificamente o facebook) ou não estou a fazer nada (sentado, deitado ou dormindo, em qualquer hora que não seja à noite). Mais atualmente não tenho sido vítima fatal dessas “críticas”, até porque apresento um histórico de boas notas na faculdade e quase todo o tempo que me resta, ou uma grande parte dele, levo trabalhando, o que talvez minha mãe chame de “fazendo alguma coisa da vida”,
Iniciei esta discussão a partir dos monólogos da minha mãe, mas ciente de que estes discursos atravessam certamente muitos outros contextos na sociedade contemporânea. Discursos que vêm embebidos de muitos outros valores, ideias, conceitos e preconceitos. Ora, o que se quer dizer com “fazer alguma coisa da vida”? E que ideal é esse de vida? Acreditando que a lei a qual responde a essas perguntas é abrangente, a farei com base nas respostas da cobaia desse texto: a minha mãe.
Para minha mãe, “viver uma vida” ou “fazer alguma coisa dela” é produzir. Produzir o quê? Conhecimento, dinheiro e recursos. Segundo ela é para isso que vivemos: para estudar, ganhar dinheiro e depois comprar casas, carros, sapatos, boas roupas e boa comida, a lógica aqui é a do consumo. Óbvio que não é tão algébrico assim, como um mais um dá igual a dois. Mas em parte (em grande parte), não é verdade?
Ontem mesmo assisti a um interessante filme que ilustra bem essa ocasião: “O preço do amanhã”. Neste filme a máxima “tempo é dinheiro” era factualmente verdade: a moeda circulante eram horas, minutos e segundos. Mas o que me chama a atenção, porém, é a crítica que é feita ao sistema que embasa o funcionamento dessa sociedade, onde a maioria paga com o preço da própria vida, dessa maneira sendo determinados a viver menos de três décadas, para que uma minoria possa viver milhões de anos. O amanhã de cada um parece estar contado de um modo bem distorcido e embora o sol da vida esteja sobre cada um de nós, a sombra de vivê-la está para poucos.
E ainda que o comércio de “vitalidade” seja uma boa ficção, a ironia do filme com a nossa realidade continua válida: para manter a ordem desse sistema é preciso haver pessoas que mantenham essa ideia em suas mentes, de que é preciso “fazer alguma coisa de suas vidas” e que “não percam tempo”, obrigando-as a refletir pouco sobre sua realidade e levando-as a lutar por um tempo de vida que, em verdade, nunca foi seu.
Se não formos capazes de usar o nosso próprio tempo, como será possível viver? Se viver é apenas isso nesse mundo – viver pra fazer – eu desisto dessa vida, que o relógio de meu pulso também se esvaia! Mas se ainda restar esperança, é melhor que eu não perca a hora... De viver.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Violeta de sangue

Eu não posso entrar neste compasso...
Nem render-me aos suspiros deste laço,
Pois que tamanha dor de su'alma se expande
E das feridas abertas caem lágrimas de sangue!

Mas algo em ti me contagia
E entrando em seu ser jamais diria
Que sua contida face guarda mais que sofrimento,
Mas uma infindável fonte de beleza por dentro!

Um convite pois te faço neste momento:
Que ame, sonhe e faça mais que espere,
Pois que nada mais nesta vida fere
Que só viver para o sofrimento!

E de tantas gotas de sangue escoadas da alma
Nasça em ti, finalmente, a calma
E um lugar sereno onde pouse uma leve borboleta
Nas belas pétalas de uma adornada violeta...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Versos soltos


Não te culpo por já não lembrares mais de mim. Pois a vida é assim: esquecimento...
Coisas um dia foram vivas para um dia estarem mortas, não... Não te condeno...!
Por mais que ainda esteja aqui, por mais que ainda me lembre de ti...
Jamais te condeno, minha cadena... Nosso presente se foi, virou passado, porém ainda posso senti-la aqui, ao meu lado...
Não me importam mais as promessas de sempre estarmos juntos, hoje eu sei: era só um sonho! E sonhos também passam com o raiar do sol matinal...
Este é um claro sinal, de que novas rosas nascerão, ainda que pétalas velhas caiam ao chão,
E isto é a vida...

domingo, 25 de novembro de 2012

Cavando o ser (parte 4)


Quarta-feira, 9:20 AM.

Evan não sabia o bem que havia me feito com aquelas palavras: “você precisa ter os seus”. Não era a primeira vez que tal conselho tinha sido me dirigido, mas pela primeira vez  me causava algum efeito.
Sempre havia sido um garoto muito sonhador. Sonhava com  um mundo perfeito, onde tudo era admirável, maravilhoso. As pessoas seriam cordiais e entre elas não haveria raiva, ódio ou rancor. No meu mundo perfeito todas as forças conspiravam a meu favor, eu seria uma pessoa sortuda e todos os eventos confluiriam de tal forma a concretizarem meus desejos. Pode ser que tenha sido uma fase da minha vida, quando a criança percebe o mundo como servil de suas vontades. Se fase ou não, de alguma forma, eu parecia tentar pincelar um mundo colorido onde realmente só havia tons de preto e cinza.
Minha infância foi assim... Cheia de tons de preto e cinza, repleta de problemas existenciais. Não tive uma boa mãe, ela sempre foi muito seca e exigente comigo. Já meu pai era minha mãe às avessas: sempre me permitia muito, mas também à minha mãe, o que me deixava, de certo modo, de mãos atadas... Então foi assim: cresci totalmente livre dentro de um cárcere escuro e sem vida.
Na verdade nem sei bem quando ou de onde este sentimento de angústia ou medo começou dentro de mim. A impressão que tenho é que sempre as tive. Talvez fosse um espelho da minha vida, do meu dia-a-dia... – longo silêncio, e depois continua – Minha mãe sempre me cobrou muito nos estudos, sabe...? Por isso boa parte da minha vida eu passei na escola, vivia cercado de colegas, e mesmo assim nunca consegui me relacionar com muitos deles. Sempre fui um garoto de poucos amigos. Não que não quisesse, aliás, costumava me apegar muito fácil às pessoas, e quase nunca era correspondido... Então acabava me retraindo, até pra me conservar de mais sofrimento e dor.  
Também nunca fui muito bom em paquerar meninas. Na verdade das poucas vezes que tentei foram experiências tão fracassadas que não voltaria jamais a repeti-las! Não andava com os garotos, eu parecia ser de alguma forma diferente deles. Mas eu só saberia disso tempos depois... – sorri compenetradamente –, não brincava com eles, sempre os achei uns completos idiotas.
─  Mas o que Evan, aquele garoto de quem me falou no começo de nossa conversa, exatamente o quê ele falou a você? – pergunta o psicólogo.
─  Bem, estava quase a chegar neste ponto... Evan é um grande amigo meu e está num relacionamento sério há dois anos. Sabe... Eu sempre havia admirado muito o modo como eles se tratavam. Pareciam feitos um para o outro e sempre fiz questão de elogiá-los grandemente. Certo dia estávamos nós três sentados à mesa e eu lhes relatava como de costume como eles tinham sorte e blá blá blá... Foi quando Evan virou-se para mim e me falou que os sonhos não eram feitos de fantasia e que tão mais distante estariam de mim quanto eu os idealizasse nos outros. “Você precisa ter os seus sonhos”, foram suas últimas palavras. Aquilo pareceu me tocar profundamente, era como se pela primeira vez eu tivesse aberto meus olhos para ver o mundo em que vivia. Pela primeira vez observava o que eu realmente tinha sido: um garoto problemático e cheio de idealizações e fantasias.
─ Foi quando você decidiu procurar minha ajuda... – Indaga o doutor Thredson.
─ Sim, foi exatamente neste período.
─ Isto para nós representa um grande avanço. Pelo fato de você próprio sentir-se necessitado de uma ajuda profissional. Bom, Kevin, nossa sessão está encerrada por hoje, tudo bem? Nos encontramos novamente na sexta-feira!
Thredson acompanha-o até a porta, onde se despedem formalmente com um aperto de mão. Kevin desce as escadas que davam acesso à saída do prédio London Hilton Estava ainda absorto em suas lembranças. Sentia a inquietude por não poder saber o que esperar para o futuro, mas de alguma maneira tinha a certeza de estar fazendo o caminho mais certo.
Do lado de fora o dia estava lindo: sol entre poucas nuvens. Uma brisa leve e fria carregava as folhas caídas sobre a calçada. Era outono e as árvores começavam a perder suas folhas já amareladas. Nas ruas pouco movimento, o que permitiu atravessar a rua tranquilamente. Como a vida parecia mais leve... Como as coisas pareciam se ajeitar, mas não mais como num sonho... Aquilo era o real, era ele mesmo...!


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Desvelando o Ser


Martin Heidegger nasceu na Alemanha, em 26 de Maio de 1889. Considerando este recorte temporal: de fins do século XIX, data de seu nascimento, até boa parte do século XX, época de seu falecimento é fundamental perguntar: o que é possível ter vivenciado nesse período? E como estas vivências poderiam ter acompanhado o pensamento metateórico deste filósofo? A princípio tentaremos responder a estas perguntas, procurando uma forma de entendê-lo melhor.
O presente autor fenomenológico-existencialista, certamente sofreu as pressões de seu tempo. Viveu na época da ovacionada racionalidade, da veneração à técnica, da propagação avassaladora de um modo de produção – o capitalista – o qual entorpecia os detentores dos meios de produção com enriquecimento farto, e subjugava os operários – mão de obra das indústrias –, configurando para ambos um modo de vida cada vez mais artificializado e distante de uma vivência equânime de “ser humano”, enquanto encontro de si no outro e de si em si mesmo.
Ele, de certo modo, conheceu esta realidade conflitante, paradoxal, e provavelmente foi influenciado a discorrer sobre estas realidades. Seu recurso, metaforicamente falando, foi um espelho, com o qual propunha contrastar aquilo que parecia ser com o que realmente era, e estava oculto diante do que se podia ver. Pretendia ferir, com isso, as concepções individualizantes e uniformizadoras, concepções estas necessárias para a propagação daquele modelo “impessoalizante” gestado por dada sociedade industrial e técnica.
Era sobre isso que Heidegger escrevia: sobre olhar-se no espelho e ver, para além de sua face, a sua existência, não enquanto coisa dada, mas como algo singular e único. Ressaltava que, para isso seria necessário mergulhar em si próprio buscando, diferente da vida ilusória, aparente, aquela verdadeira face de si. Abria espaços para além da velha racionalidade, uma vez que dava relevo às vivências e experiências intra-subjetivas, as quais, portanto, estavam essencialmente embebidas de um caráter puramente sentimental.
A própria filosofia heideggeriana se propôs a mergulhar em suas próprias ideias buscando encontrar a verdadeira face do “eu”. Por isso diz-se que a filosofia dele é ontológica – pois busca nas causas primeiras a existência do seu ‘eu’ mais próprio, do ser que é. Heidegger, ao fazê-la, pontuou a diferença do homem enquanto ser singular, isto é, diferente dos outros seres, chamando- de Dasein, ou seja, ‘ser-aí’ – como espaço [lugar] onde o ser se desvela [vivencia] o seu eu (no seu próprio corpo). A existência, a partir daí, só é dada ao Dasein, porque, dentre outras coisas, é a partir deste ‘modo de ser’ singular que é possível estabelecer questões e significados às coisas.
Heidegger não via este Dasein como um ser fora de seu contexto formador e por isso o designava como um ser-no-mundo, este mesmo mundo não só como espaço de pertencimento – de habitação –, mas também como espaço de vivência com outros Dasein, espaço de interações, portanto de acordo com o modo de ser primordial do homem: em suas relações. Afirma-se assim porque não é possível estabelecer a função de pertencimento consigo mesmo caso não haja a relação de pertencimento com o conjunto dos outros Dasein, conjunto esse que legitima e contribui para existência do ser.
Contemplando aquelas noções de homem, enquanto ser-aí e como ser-no-mundo, a filosofia heideggeriana estabelece um conjunto de outras noções que embasam e oferecem subsídio para se pensar este modo singular de “ser” humano. Uma delas é a noção de cuidado: uma maneira cotidiana específica de habitar o mundo e relacionar-se com os outros, privilegiando a preservação e a conservação daquilo o qual é pertencente ao próprio Dasein, mas também a outrem, ou seja, de um modo geral, de tudo o que concerne à existência.
O presente filósofo também percebeu que o fenômeno de ser, não era claramente manifestado, ao menos não de imediato, e o caminho para desvelá-lo é a partir de uma atividade reflexiva de sua experiência. O que fica nas entrelinhas desta ideia, e que Heiddeger contempla em sua obra, é de que muito comumente o homem vivencia sua experiência de maneira impessoal, isto é, não condizente com aquilo o qual é mais próprio de si, de seu lugar íntimo.
Aliás, viver impessoalmente era praticamente imperativo naquele contexto socioeconômico e político no qual o tal filósofo existencialista conheceu, até porque não seria nada interessante haver sujeitos refletindo sobre sua própria realidade e sobre como aquela ordem socioeconômica e política as empurrava a viver de maneira cada vez mais imprópria. Utilizando-se desse prisma, não é assim que grande parte vivemos em muitos momentos?
A pergunta que deve ser feita, e a qual, de certo modo, fica respondida por Heidegger é: por que não questionamos sobre nossa vivência mais própria? O que nos impele a não fazermos isso? A possível resposta elucidada por ele é de que nos rendemos à força do hábito, e o fazemos porque nos parece mais cômodo. Veja-se esta alegoria: um bebê, para reivindicar seu primeiro fôlego de vida acaba sofrendo e chorando, por sentir o ar expandindo seus pulmões adiabaticamente e, mesmo que este fato permita ao bebê viver e ser ele, isto causa muita dor. Semelhantemente acontece com o homem: também sofre ao entrar em questão consigo mesmo, sente dor ao procurar encontrar sua própria essência. Partindo dessa ideia é possível conjecturar o porquê de se evitar tanto: é mais confortável permanecer no modo “automático” o tempo todo.    
Não se diz que isso, entretanto, seja errado (o fato de utilizar-se do hábito). Até porque é insensato reclinar-se a pensar sobre tudo de si o tempo todo. Heidegger sabia disso, tanto é que estabeleceu a noção de débito: sempre devemos a nós mesmos pela incapacidade de realizar todas as possibilidades. E não há nada de errado com isso. O que é possível – e esperado – que se faça é demonstrar abertura de sentidos, de possibilidades. Este é, a partir dele, um modo autêntico de se permitir viver.
Já dizia Carlos Drummond de Andrade que a “dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”, e a angústia mostra-se inevitável neste sentido. Entretanto desponta como crucial no papel de instigar o Ser a assumir a responsabilidade de poder ser de diferentes maneiras. É a partir dela que nos tornamos capazes de mergulhar no desconhecido de nós mesmos e assim conhecermo-nos um pouco melhor.
A abertura feita por este processo de autoconhecimento, ainda que passando por sensações, ora dolorosas, ora angustiantes, nos leva a alcançar um nível de confiança em nós mesmos o qual está evidenciado na noção de ‘decisão’ expressa por Heidegger: enquanto abertura privilegiada, a qual permite suportar eventuais desconstruções de velhos paradigmas e constituir novos modelos.
 Talvez a maior angústia que se possa ter é acerca de algo realmente indissolúvel. É quando nos sentimos limitados demais, presos a uma dada circunstância. Se angústia pode ser entendida resultado da limitação, do encarceramento, certamente somos seres angustiados (se abrirmos espaço para a reflexão, óbvio), pois, assim como conceituou Heidegger somos seres-para-a-morte. E esta é algo factualmente irremediável.
E ainda que seja algo comum a todos os homens, assim como a existência também o é, cada qual somos capazes de vivenciar de modo singular a morte (não o morrer). O fenômeno da morte, no sentido trabalhado por Heidegger, parece estar muito mais atrelado ao sentimento existencial de finitude, e este sentimento aparece como sendo particular para cada Dasein.
Este foi Martín Heidegger: um homem que esperava mais de que um mundo técnico, distante de uma vivência não própria, impessoal. Se não for dizer demais, até diria que foi um sonhador, pois desejava um mundo onde ser aquilo que Somos estivesse mais perto de se tornar real. 

domingo, 18 de novembro de 2012

Primeiro encontro (parte 3)


Ezra põe a mão no peito de Kevin.
─ Ual, posso sentir o palpitar do seu coração... Como ele está rápido!
─ Bem... Eu nunca havia sequer tentado dançar antes. Então... Acabo ficando um pouco nervoso!
─ Mas veja! Você está se saindo super bem para uma primeira vez ─ e dá uma pirueta em Kevin.
(Risos de ambos)
─ Você é um cara muito bacana, não estava errado quanto a você...
─ Psssiu... ─ chia aproximando sua face à de Kevin.
Seus rostos a poucos centímetros de distância um do outro, estavam quase a se tocarem, quase a se beijarem, quando são interpelados por uma voz a avisar:
─ Aqui está, senhores, seu pedido! Fiquem à vontade, se precisarem de alguma coisa é só levantar a mão e venho até vocês!
Kevin solta Ezra, sentando-se rapidamente. Já Ezra fica a entreolhar o garçom e os pratos bem enfeitados. Entre a resignação e indignação, resolve sentar-se também a mesa.
─ Tudo bem, assim que precisarmos nós PESSOALMENTE o chamaremos. Muito obrigado!
─ Ah, tudo bem. Bon appetit! ─ e sai prontamente.
Os dois se olhavam agora e riam-se por dentro, gozando do eventual embaraço que lhes havia ocorrido há pouco.
─ Hmmm... Esta comida está muito boa! ─ fala Kevin.
─ Não te falei? ─ responde expandindo um largo sorriso.
─ De que é feito mesmo?
─ Basicamente de camarão... Ele vem cozido, então certamente não viu...
─ Camarão?! ─ grita, cuspindo no prato.
─ O que houve? Algum problema?! ─ levanta-se Ezra, preocupado.
─ É que sou alérgico! ─ diz, tossindo.
─ Garçom! Garçom! Por favor, um copo com água! Água, urgente!
O garçom traz a água, e em poucos minutos parecia tudo normalizado.
─ Me perdoe... Não poderia imaginar que eras alérgico a camarão!
─ Não, não te preocupes. Não me aconteceu nada... Estou bem!
─ Puxa! Assim fico mais tranquilo! Vamos para outro lugar? Não me sinto mais à vontade num ambiente em que tentei matar você! ─ afirma rindo.
─ Acho bom! Para onde vamos?
─ Que tal um sorvete? Até hoje nunca vi uma pessoa que fosse alérgica! Você não será o primeiro, não é?
─ Não. E amo sorvete!
─ Então, o que estamos esperando aqui?! Let’s go!
Pagam a conta e saem abraçados, rumo à porta do restaurante. Pareciam conhecidos já de longo tempo. O garçom fica parado no balcão olhando os rapazes sumirem na sombra da noite. A noite continuava leve naquele lugar, um pouco mais movimentado, mas certamente menos romântico, menos fantástico...   
 Veja: PARTE 4

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lágrima de mim



Quando você banha meus olhos com suas águas cristalinas, oh, lagrima de mim, sinto (além de uma leve coceira) aonde você passa (uma leve coceirinha), mais vontade de chorar. Ora, por que será? Chorar é bom, faz bem pra alma, traz consigo a calma e a paz no coração.
É uma pena que contigo venha coriza no nariz, não, isto nada condiz com toda sua siplicidade e beleza. Mas os olhos ficam vermelhos como os da maconha, isto é certeza! E ainda sim és bela! Lágrima de ouro, que vales mais que um tesouro!
Tu és tão linda que amas o som da música, amas escutar o som do vento, leva na brisa o desalento e de mim todas coisas ruins!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Primeiro encontro (parte 2)


Ezra ousa segurar a mão de Kevin que estava sobre a mesa, ao que Kevin responde retraindo-a desconcertadamente.
─ Desculpe, estou sendo invasivo, não é?
─ Não, não é isso... É que... Pareço não merecer isto, me perdoe... Pareço um louco, não é? ─ fala, cerrando os olhos.
Ezra segura o queixo de Kevin levantando o rosto já caído e olha nos olhos de Kevin:
─ É, assim parece bem melhor! ─ sorri garbosamente.
Kevin parecia não acreditar naquela áurea que o envolvia um lado a outro. Sentia-se noutra dimensão: haveria de estar vendo tudo aquilo, toda aquela perfeição e delicadeza? Parecia se perguntar cada vez que pestanejava, duvidava que seus sentidos trouxessem à flora um ser até então apenas idealizado, mas que, no entanto, estava bem ali, à sua frente!
─ Pareço estar sonhando e tu fazes parte desse sonho. Poderia me beliscar, pra eu ter certeza de que... Ai! ─ grita baixinho, depois de receber um breve beliscão, antes mesmo que terminasse de pronunciar toda a frase.
─ Você mesmo quem pediu ─ defende-se, com um sorriso maroto nos lábios.
O garçom volta para recolher a taça já vazia:
─ Desejam alguma coisa para comer? ─ oferecendo prontamente o cardápio.
─ Que iremos comer...? ─ pergunta Ezra, voltando-se para Kevin.
─ Não sei... Pra falar a verdade nem estou com tanta fome...
─ Vamos lá... Não seja acanhado! Estamos num ótimo restaurante, não quero que percas o prazer de experimentar uma boa comida!
─ Bom... Sendo assim, o que pedires quero o mesmo.
─ Tudo bem, prometo não decepcioná-lo!
O garçom anota tudo:
─ O pedido de vocês chega em alguns instantes!
─ Tudo bem ─ concorda Ezra.
─Aqui estamos nós a sós de novo! Espero que esse garçom não venha nos incomodar mais vezes esta noite! ─ fala Ezra, sussurrando em tom de segredo.
─ É, espero que não nos incomode mais vezes... ─ responde Kevin, expandindo um sorriso.
─ Você é muito tímido assim sempre?
─ Ah, eu? Não, não. Na verdade até falo demais, meus colegas sempre penam muito comigo, tem de me ouvirem falar o tempo todo ─ lembra, rindo.
─ Não parece ser bem assim no momento... Mas acho que posso ajudá-lo!
Naquele momento começava uma música leve e romântica. Ezra levanta-se e vai até Kevin oferecendo a mão para ele:
─ Gostaria de dançar?
─ Como? Eu?! ─ pergunta, já ruborizando um pouco a face.
─ Sim, você mesmo. Vamos, não lhe dou escolhas!
─ Mas eu não sei dan...  ─ antes que terminasse de falar Kevin é puxado.
─ Você é um garoto muito relutante... ─ Ezra sussurra.
(Kevin suspira)
Os dois são embalados pela melodia serena e suave da música. Pouco se escutava naquele lugar, pouco também se podia escutar: os olhos se fechavam, enquanto cada um podia sentir o palpitar do coração do outro. Seus calores se abraçavam, suas frontes reclinavam no ombro um do outro, suas almas dançavam juntas, sonhavam juntas.
─ Não está bem melhor assim? ─ pergunta Ezra.
─ Sim...

Veja: PARTE 3


domingo, 11 de novembro de 2012

Primeiro Encontro


Era uma noite de sábado. Em uma mesa bem adornada de um elegante restaurante de Londres, com vistas para os altos prédios da cidade, através de seus vitrais.
O garçom se aproxima da mesa onde se encontravam os dois rapazes que acabavam de se acomodar:
─ Boa noite, desejam alguma coisa para comer ou beber?
─ Ah! Sim, por favor. Traga-nos duas taças de vinho... Você bebe? ─ Pergunta para seu acompanhante.
─ Não, não bebo.
─ Ok, então sendo assim, traga apenas para mim. Depois escolhemos algo para comer.
─ Tudo bem ─ fala o garçom, já se afastando da mesa.
Kevin e Ezra já se entreolhavam há algum tempo. Parecia que ambos queriam falar, mas hesitavam em sobre quem começaria aquela conversa. Até o momento em que Kevin decide tomar a iniciativa:
─ Nem sei por onde começar, eu... (grande suspiro).
Ezra sorri carinhosamente e prossegue:
─ Me parece um tanto nervoso... Algum problema?
─ Não, não... É que você é tão... Tão perfeito!
Neste momento olha para Ezra fixamente, buscando todos os sinais de sua beleza: olhos pretos magnetizantes, lábios vermelhos, pele alva e contrastada com seus longos fios de cabelo tão pretos quanto a escuridão da noite, e brilhantes como as estrelas do céu!
─ Achas mesmo? – Responde gozadamente, fazendo algumas caretas miúdas.
─ Sim... – Outro grande suspiro.
O garçom traz a taça de vinho.
─ Gostaria de me admirar tanto assim também, cada vez que me olho no espelho! (risos).
─ Não fazes noção de quanto és belo... E não tenho dúvidas de que muitas pessoas dariam qualquer coisa para ficarem apenas um dia com você...
Ezra pega a taça que está à sua frente e toma um pequeno gole de vinho.
─ Você também é um cara bem bonito. Devem ter muitos garotos e garotas atrás de você na escola...
─ Imagina... Há muito tempo espero a pessoa certa para um relacionamento sério, e nada!
─ Humm... E achas que sou o cara certo para ti?
─ Bem... Desde a primeira vez que o vi senti algo como que uma força paramagnética me fisgando pra perto de você. Foi algo muito intenso... E desde aquele dia não consegui parar de pensar em você... Dormia e acordava, e a única coisa que conseguia pensar era no seu sorriso... Até fico repetindo aquela cena em câmera lenta na minha mente, sabia?
Ambos riem por um pequeno momento.
─ Câmera lenta? Interessante... – Responde ainda sorridente.

Veja: PARTE 2

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Respondendo questões!

Como você avalia a diversidade teórico-metodológica presente na Psicologia?


Provavelmente uma primeira reação que se expressa em minha mente em função desta diversidade é de dúvida, ou questionamento: por que existem tantas concepções teórico-metodológicas em torno de um mesmo objeto – o "homem"? Outra reação que aparece logo em seguida, quase como consequência da primeira, é de tentar resolver este enigma e dissolver esta questão.
Confesso que não tem sido uma tarefa muito fácil, pois os domínios teóricos da Psicologia são vastos e cada qual tem uma fundamentação lógico-argumentativa muito convincente. Se o raciocínio lógico está em todas elas bem encadeado, o que as difere enquanto correntes teóricas? São seus pressupostos (filosóficos)! Cada qual traz consigo diferentes concepções de homem e, em função delas, suas prováveis deduções (ou induções).
Mas, afinal, isto é bom? Isto é ruim? Se bom ou se ruim, em que medida? Bem, não sou o tipo de pessoa/ser humano/sujeito que valorize um entendimento humano esfacelando-o e analisando suas partes, sem, dessa maneira, considerar o âmbito holístico, geral. E por isso certamente não encaro a existência de tantas correntes teórico-metodológicas como algo tão bom, isto é, a qual mais contribua que desagregue conhecimento em torno dele. Sem falar, é sabido de todos, que os adeptos de uma ou outra teoria muitas vezes se enclausuram tanto em seus conceitos que perdem a dimensão da vida humana e de suas peculiaridades.
Obviamente que a diversidade tem suas vantagens e dividir a “mente”, o “cérebro”, o “psíquico”, ou quaisquer outras denominações semelhantes a essas, traz consigo uma qualidade inquestionável: observar e estudar utilizando-se diferentes ângulos e perspectivas, enriquecendo e contribuindo, até certo modo, para a completude dos conhecimentos acerca do homem. Até certo modo, porque, como havia referenciado anteriormente, quando se parte para o “enclausuramento” presencia-se muito mais uma ruptura, quebra ou afrouxamento que uma construção, somatório, daquilo o qual é verdadeiramente ser humano.
Bom, no momento prefiro me apegar à seguinte sábia frase de Voltaire: “Posso não concordar sequer com uma palavra do que disseres, mas defenderei até a morte o direito de dizê-la”.Talvez seja esta mesmo a melhor opção a ser feita.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Nódoa na Existência

     Pedir para que um adulto pare de pensar mais em si em função de um novo ser    um filho    com certeza é pedir muito de alguém o qual também quer viver, quer sentir-se livre. Mas é igualmente cruel cobrar de seus filhos que cresçam antes do tempo e tornem-se logo adultos. Cobrar que sejam autônomos para poderem o quanto antes se virarem sozinhos e, quem sabe, até os ajudar financeiramente, assumindo suas contas.
     Os bons observadores perceberão o porquê desta minha posição argumentativa, basta ter um pouco de empatia: fui cobrado muito cedo por respostas, responsabilidades. Fui estigmatizado pela espera de um grande futuro    promissor, brilhante. E por isso tinha muito medo do futuro e de suas incertezas, ou melhor, das represálias de não concretizá-lo. E lentamente minha infância e adolescência foram se tornando num chão cada vez mais movediço, num pântano insalubre e sem vida.
     Não provei certamente as agonias de passar fome... Céus! Deve mesmo ser horrível! Também não precisei "vestir-me de sol" por me faltarem roupas, não cresci burro. Mas não era uma pessoa feliz. Me chamem de ingrato, mimado, do que quiserem, mas não tinha jamais paz de espírito! Cresci cercado de terrores, fantasmas invisíveis, e que, diferentes daqueles de filmes, podia vê-los todos os dias a perturbar-me.
     Hoje sou capaz de notar: todo o suor, e todos aqueles ovos engolidos crus a fim de saciar a fome de uma pobre operária nordestina, que abraçara o mundo, rumo ao "Sul Maravilha", numa tentativa desesperada de viver uma vida melhor e oferecer melhores condições para seus pais, irmãos e um filho, fruto de uma ironia do destino!
     Mas não pude enxergar isso quando era criança. Não pude ver todo o esforço para suprir meu corpo de suas necessidades. Não pude entender as desgraças da vida, não via suor, nem ovos, nem cansaço, via apenas maldição. Maldição na minha vida, no meu caminho. Quem sabe não fosse "Deus" fustigando minha vida, assim como fez com Jó? A vida de uma criança que não sabe reconhecer a miserável sorte que tem?
     Meu corpo está todo marcado com essas feridas que o tempo, apesar de tudo, cuidou de dar algum sentido, tentando cicatrizá-las...

domingo, 28 de outubro de 2012

Darkness fantasy


     Tentei respirar esperança enquanto só haviam sentimentos dentro de mim. Olhei para o espelho: ainda me lembro de estar chorando baixinho. Mas que merda é essa que invade meu coração? Que agonia é essa e de onde vem, sem causa, sem razão?
      Penso escutar um piano vindo de algum lugar. Descanso minha alma e deliro... Procuro nos meus sonhos seu rosto, seus olhos olhando fixamente os meus. Posso até sentir seus braços entrelaçando meu ser de um lado a outro, me levando para mais perto de você. Nossos corpos conversam, nossos lábios se perdem, sussurros...

       ...Suspiros...          
    
     Não quero ainda abrir meus olhos para, assim, poder vê-lo ainda mais um pouco. Esses cabelos cor de mel... Sim, meu coração bate, esperneia-se, arrebata-se: ele não quer ficar longe, de você que está em mim, mas que não sou eu! Tu, que sequer fazes parte de mim, mas que não consigo deixar de desejá-lo...
     Sim, eu te quero! Sentir seu calor emanando junto com o meu, embaçando os vitrais de nosso quarto. Sim, eu te espero, mais tarde, nos meus sonhos, onde possamos nos amar...
      Espere, ainda não me deixes... Espere, fique um pouco mais em minha mente!
      
      Oh, diamante de água, escorra de meus olhos! Leve consigo a beleza desse amor de fantasia...
      Música, cante meus prantos! Surrender my voice to your abism, so deep...
      Mente, tome mais um gole desse absinto, olhe apenas mais uma última vez... 
...e durma.
     
      (...)
                                Ator Evan Peters, de American Horror Story.

sábado, 27 de outubro de 2012

Assombroso!




      Não sei o que guardas atrás de sua cortina, oh, Universo! Não sei até onde se espraiam seus horizontes, oh, mar de estrelas! Mas sua beleza inunda meus olhos tão pequenos diante disso tudo, como se sequer existissem. Seu tamanho me assusta, mas sua beleza me convida a apreciar um pouco mais de ti, como num romance eterno, infinito... És tão colossal, tão magnífico que inexistem palavras para descrevê-lo um pouco mais. A mim só me resta uma coisa: contemplar...





















quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Sentindo assim

Eu não sei dizer
Como vou dizer
Porquê vou dizer.

Eu só sei dizer
Que não quero ser
Este "ser" assim...

Quero dizer: pare!
Quero que repare
Noutra parte de mim.

Que sofre, geme e clama
Mas que nunca apaga a chama
De um dia poder-ser.

Mas como ser neste mundo,
Se não um "ser" vagabundo?
Que de tão seco e frio
Faz-nos igualmente coisa vil?




segunda-feira, 22 de outubro de 2012

MEMÓRIA: não se esqueça de lembrar!


“O que é a memória?”: tal pergunta parece ser uma questão bem simples e, consequentemente, também teria uma resposta óbvia, não é mesmo? Não. O senso comum de um grande número de pessoas, em ressonância com o mecanicismo cartesiano, acredita que ‘memória’ é uma parte específica do cérebro a qual seria responsável por guardar informações passadas.
É possível que esta visão seja favorecida pela analogia com a organização sistemática dos computadores (os quais também tem uma peça chamada memória, que guarda funções similares com a “memória” humana). E mesmo que não possa ser asseverado que seu termo tenha surgido com a revolução cognitiva, conjuntamente com as novas descobertas na área da informática, certamente é razoável dizer que eventuais comparações foram, de fato, inevitáveis após o surgimento de tais “máquinas inteligentes”.
Bem, não é tão evidente assim, em primeiro lugar porque o que designamos ‘memória’ refere-se, não a uma estrutura fixa no cérebro (ainda que seja possível perceber a ativação de  áreas cerebrais específicas por ressonância magnética), mas a um PROCESSO ou MODELO, o qual envolve mecanismos de: armazenamento ou codificação   transformação de dados sensoriais em uma forma de representação mental  , retenção ou armazenamento    a manutenção da informação já codificada na memória    e recuperação    que constitui no acesso às informações de experiências passadas armazenadas na memória.
Segundo lugar porque, apesar de nomearmos este sistema de armazenamento e de recuperação de dados, conferindo-o especialidade e, portanto, “tarefas singulares”; em se tratando da atividade holística das funções cerebrais, nota-se uma integralização das diferentes áreas relacionadas, por exemplo, com as emoções ou com dados sensoriais, configurando dessa maneira um continuum destas funções mentais e, irredutivelmente, suas inter-relações.
Abordando agora sob a ótica evolucionista: por que é importante termos uma função cerebral denominada memória?  Segundo os conceitos evolucionistas, um dos critérios para haver evolução é garantir a sobrevivência do indivíduo. Se, então, não possuíssemos memória seriamos menos aptos a sobreviver no ambiente em que vivemos? Sim, e a resposta não poderia ser outra: em análise filogenética, ou seja, de história de nossa espécie (e de outras espécies também), “guardar” e “recuperar” eventos passados parece ter sido uma qualidade adaptativa, e que nos ajuda, por exemplo, saber que comer amoras é ruim, pois ao comer uma amora em um tempo passado me fez passar mal e, portanto, não devo comê-la de novo.
A função memorativa por consequência também nos auxilia em tarefas utilitárias do dia-a-dia, como “decorar” uma sequência de números de um celular, a fim de anotarmos rapidamente em um papel. Tal memória é considerada de curto prazo, ou memória primária, pois nela são mantidas informações passageiras, normalmente em uso. Outra categoria (desconsiderando os meios termos desta interface funcional) seria a memória de longo prazo, ou memória secundária, a qual é mantida por um longo período de tempo.
A capacidade memorativa também favorece a existência de um “self” ou “auto-imagem”, influenciada pelos fatores sociais, familiares, ambientais e individuais. É óbvio que a existência de tal “self” não seria jamais possível caso não houvesse a qualidade de lembrar quem éramos e, portanto, a relação de continuidade, culminando em como nos vemos hoje.
A memória é tão importante que sem ela seríamos incapazes de lembrar o que havíamos acabado de discutir até aqui. E por falar nisso, qual a primeira palavra do título?

domingo, 21 de outubro de 2012

Resenha crítica do capítulo 1 (“Abrindo a caixa de Skinner”), do livro “Mente e cérebro”, escrito por Lauren Slater.



A escritora, formada em psicologia, tem um estilo muito singular de escrever, o qual não apenas o prende à leitura, em função de sua inquestionável qualidade, mas também, de certa forma, leva-nos a adotar seu ponto de vista, uma vez que recorre, por vezes, a argumentos indutivos – os quais serão referenciados posteriormente   , mas que não os tornam menos importantes por isso.
À primeira mão este dado pode parecer não muito importante, mas torna-se crucial, à medida que nos damos conta que é através do próprio olhar prismático da escritora que aparecerá a figura de B. F. Skinner e que, portanto, será a partir deste mesmo olhar que se farão todas as medidas de apreciação à figura de Skinner.
O capítulo inicia fazendo um rápido levantamento da produção científica de Skinner e apresentando sua mais conhecida ideia: a noção de condicionamento operante, a grosso modo, uma espécie de treinamento o qual geraria um tipo determinado de comportamento. Também aponta para a existência de um “ranço” muito forte com relação a esta teoria comportamentalista, ranço este provavelmente relacionado ao medo que se tinha de que as ideias de uma “engenharia social”, através da prática de reforço e punição, fossem utilizadas por regimes autoritários da época, como o fascismo.
Certamente o temor de que isso factualmente acontecesse levou muita gente (inclusive cientistas) a ignorar e criticar a teoria de Skinner, conforme aponta sabiamente Lauren, criando, inclusive, mitos destrutivos sobre a figura de Skinner e de seus experimentos, da mesma maneira como acontece com qualquer um que, de alguma forma, desagrade os preceitos políticos e morais de sua sociedade. A autora exemplifica este fato trazendo às claras a figura de Deborah Skinner – filha de B. F. Skinner, que foi midiaticamente mostrada como uma vítima hedionda dos experimentos imorais de seu pai e, supostamente até se suicidado, mas que, na verdade, provavelmente sofreu senão por tais opiniões desmedidas.
Ficam muito claros, após a leitura, os objetivos da ciência skinneriana: buscar estabelecer uma ciência demonstrável, que cuidasse de dar relevo à face fisiológica dos mecanismos de  comportamento para, a partir daí, pensar numa aplicação social benéfica e que transpusesse as fronteiras de nossos corpos e de nossas limitações. Obviamente que a referência a estes objetivos é dada a partir das deduções de Lauren, em cima de tudo o observado acerca das publicações de Skinner, e não do próprio, eis porque tais conclusões merecem, não um descrédito, mas um decréscimo do que foi revelado.
Não se pode dizer, no entanto, que a tal “ciência demonstrável” esteja em conformidade com a aquela mesma ciência comportamental proposta por Watson. As próprias concepções filosóficas que guiam as produções de ambos são diversas: Watson nutre sua ciência psicológica comportamental a partir da concepção realista, isto é, de separação entre o mundo interior – inacessível –, e exterior – mensurável –, portanto seu campo de investigação está pautado na busca por determinar os estímulos e suas respectivas respostas; já Skinner segue outro caminho: a linha do pragmatismo, a qual não enxerga economia conceitual em separar o mundo daquele o qual nele vive, não fazendo, pois, distinção entre o que está “dentro” e “fora” de nós.
Skinner, ao adotar o pragmatismo, vislumbra alcançar argumentos não apenas satisfatórios, mas também utilitários - ou seja, que tenham um efeito aplicável, prático. Ciência comportamental pragmática, portanto, se configura como “descrições econômicas e abrangentes da experiência natural humana” (Baum,W., pg. 43). E o behaviorismo radical se centraria fundamentalmente nesta prática conceitual econômica e na preocupação com os termos utilizados.
Obviamente existem muitas objeções ao pensamento científico de Skinner, mas o próprio também, a tantas outras concepções científicas as quais priorizavam o campo subjetivo no estudo do comportamento humano. O presente cientista, tão rigoroso nos seus métodos, criticava bastante os métodos de introspecção, taxando-os enfaticamente de 'mentalistas' e, portanto, sem embasamento científico. Lauren evoca inteligentemente uma possível ligação desta postura adotada por Skinner com a experiência de seu tempo, conturbado pela Primeira Grande Guerra. “Nossa era não está sofrendo de ansiedade, mas das guerras, crimes e outras coisas perigosas”, afirma o próprio Skinner. Levando isso em conta, há de se entender porque o tal procurava firmar uma concepção científica tão pragmática e distante dos questionamentos existenciais.
O que se pretendia era alcançar resultados, soluções. Mas onde encaixar o sentimento, as paixões, a moral, o desejo e a liberdade (só pra citar alguns)?  Não dá para extrapolar tanto o que foi cientificamente colocado, numa tentativa frenética de extrair ideias outras que não foram contempladas por uma teoria, como Lauren faz em certos momentos. Não é inteligente também considerar um cientista tão competente e brilhante de forma a ser capaz de contemplar satisfatoriamente todas as questões possíveis. Cientistas assim não existem! E Skinner, portanto, não é um deles. Não há ódio, nem remorso, apenas fatos. Assim sendo, por que não aceitar o fato de que ele, sim, foi limitado em suas ideias até certo ponto?
Provavelmente é o que o já idoso professor Kagan estivesse querendo falar quando afirmou: “suas descobertas [de Skinner] não conseguem explicar pensamento, linguagem, raciocínio, metáfora ou ideias originais, nem outros fenômenos cognitivos. Nem explicam culpa ou vergonha”. Talvez quisesse dizer simplesmente que a teoria de Skinner é limitada, não dá conta isoladamente destes fenômenos e que o humano envolve uma complexidade tão expressiva a qual não se explica em simples teoremas matemáticos.
Várias outras concepções da psicologia, como a psicanalítica, a fenomenológica e até mesmo a social, somam opinião contra a essa provável simplificação do universo humano - a qual considera nossas ações meramente como reflexo de experiências “on-off”, de reforço ou punição. Não existem apenas dois ou quatro caminhos disponíveis, mas toda uma cadeia inimaginável que constitue o 'ser' humano, gerando uma intrincada teia de complexidade, e que aumenta ainda mais quando interagem entre si, formando o seio social. Há de se precisar compreender os significados que CADA INDIVÍDUO, singularmente, oferece e recebe do mundo. Há de se considerar os aspectos subjetivos, e não tão facilmente enquadrá-los em rótulos como “mentalismos”.
Por que, assim como verificamos a expressão da resposta a um dado estímulo, também notamos a existência não só da ação, mas da vontade, e é a partir dela, da vontade, que somos e atuamos no espaço. Eis aqui um ponto em discordância com o apresentando por Lauren: diferente do que a própria afirma, não é coerente explicar a “insensatez humana” tão somente como fruto de um “comportamento irregularmente recompensado”. O que falta a tudo isso? A autonomia, a qual ao passo que a temos nos é extraída, ou negada. Óbvio que haveremos de concordar, ainda que não unanimemente, que a autonomia referenciada não se concretiza na forma de “livre-arbítrio”, noção esta profundamente atrelada ao equivocado dualismo cartesiano, bem como a certas correntes religiosas. Mas, sim, como potência: de decidir o que, onde e por que fazer. Quem sabe pensar desta forma até não teria extirpado o medo que se tinha contra os regimes fascistas de seu tempo?             
Provavelmente o desvio de um possível “furo epistêmico” em relação ao que foi escrito por Lauren esteja no fato de ela ter trazido mais de perto a face humana de um “cientista-humano”, o qual sempre olhamos tão secamente como se fossem realmente meros códigos expressos numa folha de papel. Eis a salvação de seu belo texto, poeticamente escrito e que traz, sim, luzes, caminhos, para entender a figura ilustre de Burrhus Frederic Skinner ou, conhecidamente, Skinner.

"Abrindo a caixa de Skinner"     >  psikke.com.br/file/download/18092

domingo, 14 de outubro de 2012

Birthday

      Hoje, 14 de Outubro (informo como se não fosse possível ver no índice das postagens ao lado!) é meu aniversário. Nasci há vinte anos atrás, numa cidade que nem eu conheço    Pombal, PB. E olhem só que nome! "Pombal"... As mentes férteis já sabem o que todo mundo pensa quando se vê um nome assim...                
      Mas, enfim... 20 anos! Não sei se estou "grande" ou ainda guardo minha infância um muito contida dentro de mim, afinal a idade não diz muita coisa sobre as pessoas. Perguntem a um idoso se sou jovem, ele me dirá que estarei cheirando a xixi, mas se perguntares a uma criança certamente ela me achará tão velho quanto seus pais (se bem que hoje em dia existem pais mais novos que eu!). Questão relativa essa...
      Hoje nem está parecendo um "aniversário", não aos moldes de quem faça questão de fazê-lo com bolo e outras coisas mais. Não quero isso e nem me sinto bem neste exato momento, pra falar a verdade, pois  creio que aquilo o qual desejamos no dia de aniversário eu já tenho todos os dias, com meus amigos, ou, melhor dizendo, com meus próprios irmãos!
      Acho que minha maior felicidade neste momento, neste dia, é estar vivo e poder sentir, poder respirar, poder ver, contemplar... Gostaria, sim, de viver 100 anos, ainda que viver neste mundo seja tão árduo (e é, viu)! Hoje, só por hoje, não quero estar preocupado com meu futuro, nem com as dores de meu passado. Quero olhar-me no espelho (vocês já notaram que adoro espelhos? Se não percebeu basta olhar na descrição deste blog    logo abaixo do nome dele   "espelho de nossa existência") e ver quem SOU HOJE, no presente do indicativo.
       Bom, não quero falar mais, vou fazer outra coisa. E obrigado aos que comemoram comigo a lembrança do dia em que apareci neste mundo!

sábado, 13 de outubro de 2012

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Efeito placebo

     Meus pés percorriam rapidamente a passarela, desvencilhando habilmente dos outros transeuntes que vinham na direção contrária. Tinha muita pressa e continuaria assim, não fosse escutar uma familiar penetrante voz feminina que surgia atrás de mim: era minha colega de classe, Joana!

   Victor! Espere!    grita Joana, acelerando o passo.
   Olá, Joana! Vai para casa?
   Vou, sim! E você? Para onde vai com tanta pressa?    pergunta ainda ofegante.
   Vou para casa também...
   Ué, mas vai ter festa, alguma coisa...?
   Não, não...

     Nossas expressões, bem como nossos passos, não ressonavam naquele momento: ela andava calma e compassadamente, sem entender muito bem o motivo de um andar tão apressado como o meu, enquanto eu, com meu ritmo frenético, insistia em fazê-la andar um pouco mais depressa, para que me acompanhasse.
Passado um breve silêncio, volta a perguntar:

   E então? Por que corres como um fugitivo?
   Ah...! Não sei... Sempre andei assim!    me esquivo, sem conseguir uma resposta mais plausível para aquela pergunta.

     Em questão de segundos mergulhei num mar de idéias e recordações, tentando buscar alguma vez em que não desejei andar tão rápido... E, mesmo vasculhando muitas memórias, percebi que poucas foram as vezes que andei devagar, sem a preocupação neurótica de obedecer a relação matemática do espaço percorrido em função do tempo. Notei que foi na companhia de amigos que dei meus passos mais lentos, mas que desfrutei   mais longamente a alegria de estar com eles.
     Por que corria tanto, sem uma necessidade aparente? Nunca havia feito esta pergunta a mim mesmo, e agora estava a me questionar o por quê de correr, se após isso iria praticamente ficar sem fazer nada! Mergulhei mais fundo, e tentei notar o que sentia quando andava devagar: um desconforto, não sei... Alguma coisa que talvez sinalizava para mim inaptidão, perda de tempo, desperdício de um tempo finito para simplesmente andar mais devagar! Não é uma loucura?
     Ninguém simetriza seus passos a partir do tique-taquear dos ponteiros de um relógio, mas eu, inconscientemente, estava fazendo aquilo. Nunca consegui comer devagar, nem fazer nada devagar, nem ao menos ler devagar, minha vida estava sendo escravizada pela pressa de fazer tudo em tempo recorde! Olhei para meu caderno e imaginei os textos lá dentro guardados: todos eles estavam lidos pela metade, porque não tive paciência de lê-los ao todo! "Irresponsável!"   iriam me condenar os discípulos de Barrabás.
     Mas, apesar de nunca sermos capazes de descobrir a causa completa das coisas que nos fazem ser como somos e fazer o que fazemos, algo estava a se mostrar nestes meus pensamentos: eu parecia estar a fugir de algo, não sei se da morte ou se da vida, mas a fugir... A vida... Por qu...? Olhava Joa... Oi, Vic!...t! o... Victor!?

   VICTOR?! Você está bem?    pergunta Joana, assustada.
   Anh? Estou, estou!    respondo confuso.
   Você ficou assim com essa cara de abobalhado um tempão e não falava nada!
   Ah! Não... É porque estava aqui pensando na prova de amanhã...
   Sim... Entendi. Então tá, meu ônibus chegou! Tenho de ir, tchau!
   Até amanhã...
     Eu atravessara toda a passarela e nem havia me dado conta! E quanto tempo eu estava com Joana na parada? Também não sabia responder. Meu ônibus passou logo em seguida e eu, correndo mais uma vez, tento alcançar o ônibus já cheio.
 
     LIÇÃO DE MORAL: Correr faz bem pra saúde, mas correr demais afina as pernas!
   
   




quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Quando a dor fala mais alto: entre pais e filhos.

Pais: eu o tive, eu o criei, você me pertence, é meu e eu mando em você!
Filhos: quero voar! Não estou preso a você! Não sou uma propriedade e tenho meus direitos!
Pais: compro suas coisas, o alimento, pago sua escola e sua diversão! Me deves, me deves muito!
Filhos: não é justo! Assim não fizeram também seus pais? Acaso pagas em parcelas até hoje?
Pais: me deves respeito! Que absurdo falares a mim com este tom!

... Filhos: prefiro morrer a ser quem não sou! Fugirei de casa! Abraçarei o mundo! Serei livre!
... Pais: morrerás ao relento! Quem o socorrerás?! O mundo é forte, é mau! Filho ingrato!

     Um dia, há muitos anos atrás, observastes no olhar de seu filho, tão pequeno, tão indefeso, alguma coisa boa... Quando devolveste de volta o tenro olhar, não se prometiam ser felizes? Que aconteceu no caminho? Onde se perdeu aquele olhar de esperança? Onde terá ficado aquele silêncio que permitia se escutarem um ao outro?

... Pais: sei o que é melhor para ti, meu filho, obedeça-me!
... Filhos: sempre fui servil aos seus preceitos, preciso ser eu, ainda que me custe muito! Não me renderei!

Até quando este debate continuará a existir? Esta história terá um final feliz?

... Pais: Não queria que partisses... Meu filho! Eu o amo tanto... Não...!
... Filhos: Não pedi muito, apenas sua compreensão...
... Pais: Não me deixe...
Filhos: Adeus
Pais
                                                                                                                       Filhos









Pais







                                                                                ...
Amar é ter a síndrome de abstinência do coração... 
(By myself)

Amor de irmão

Algo dentro de mim me queima
E, em chamas, pede o perdão
Por este pobre coração que teima
Em sonhar que tu me amas...

Algo dentro de mim ainda chora
E com lágrimas contidas implora
Um abraço apertado de irmão.

Mas não penses demais: meu ser difere
Este amor sutil e belo, que não fere,
Da incontrolável paixão.

Como é possível acreditar em amores que não amam a fundo,
E que os amantes falem a língua do pecado?
Pois nada poderia ser mais santo neste mundo
Que este simples querer estar ao seu lado...

sábado, 29 de setembro de 2012

Por quê?

"Por que escutar você?"   pergunta a si mesmo, com preguiça e desdém. Estás sentado e olhando para a tela do computador neste exato momento, aguardando a resposta para esta pergunta, mas informo: ela não está aqui, mas em você, naqueles momentos em que mais precisava ser ouvido e entendido, mas o que provou foi algo diferente: uma face impenetrável e inflexível, a qual se reserva a nos perguntar secamente: "por que escutar você?".