domingo, 3 de março de 2013

Pedra no percalço




Meus textos sempre, ou quase sempre, surgem de uma inquietação – uma pulga atrás da orelha ou uma pedrinha que insiste em dificultar o caminhar. Estas pedras e estas pulgas não são mera invenção de uma mente puramente criativa, elas estão aí, no mundo extenso, causando muito incômodo e insatisfação.
Se sempre, ou quase sempre, escrevo por esses motivos, hei de ter uma boa causa para, mais uma vez, estar soltando as letras! E a tenho... Talvez ela não seja apenas uma, e, provavelmente, outras situações contribuam para seu agravamento. Mas, afinal, de que raios estou falando? Se anteriormente tivesses lido algum de meus textos suspeitaria do que falo e não somente isso, certamente concordarias, ou não... – no caso de estares no extremo lado oposto.
Meus textos, para quem nunca os leu, sempre versam sobre a vida e tudo que gira em torno dela. Liberdade, responsabilidade, sonhos, ambições, medo, angústia: são estes apenas alguns temas mais recorrentes nos meus escritos. E se tais textos não falam a caráter puramente filosófico, ou emotivo, reclamam da existência enquanto coisa dada ou forjada. Exige para nós enquanto ‘seres’ uma espontaneidade e singularidade, as quais, acredito eu, devem ser expandidas a cada homem.
É exatamente neste ponto que explica o prólogo do texto: estou com uma pedrinha no meu sapato, e ela está me impedindo de caminhar para aquilo que concerne à minha mais genuína existência: a liberdade! Não me sinto livre, nem estou. Óbvio que não retrato aqui a liberdade de ser tudo ao mesmo tempo, não se trata de tal ufania! Falo, antes de um campo possível e viável de liberdade: a liberdade experiencial.
Quantas críticas e contingências, até punições e certos tipo de humilhação, não são deferidas contra quem apenas exige o direito de ser daquele modo, acreditar naquilo e viver singularmente? Quantos absurdos e sapos não são engolidos todos os dias para sobreviver ileso da prisão que é o provar de uma família e de uma sociedade higiênica dos “maus costumes”?! São muitos! E já estou farto disso. Farto de todos os dias ter de levantar já com o fardo em minhas costas e deitar com todas as dores de um dia dilacerante... Farto de ter de escutar tantas barbaridades, ver tantos olhares de nojo e gestos repulsivos.
Minha fadiga e desesperança chegam quase a acabar minha fé na vida e minha esperança num futuro melhor... O que eu fiz pra merecer tanto ódio, rancor? Por que preciso ser tão lavado e purificado neste sangue? Minha desobediência em querer ser eu próprio parece até deixar ainda mais coléricos aqueles que preferem levar uma cruz e uma pedra no sapato, a terem de se entregar a um percalço e dar lugar às outras possibilidades.
Contrário a tudo isso, seria muito bom se fosse verdade aquilo que escreveu o ilustre Sartre: “estamos condenados a ser livres”... Ao menos assim poderia eu ser, quem sabe, um pouco mais feliz.

4 comentários:

  1. Muitas vezes, nossa liberdade é uma questão de decisão. Sobre Satre, prefiro entender que estamos condenados às consequências da liberdade. A nós, coragem!

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  2. Que tal provar um pouco de terrorismo poético? Abraços!

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